domingo, 15 de janeiro de 2017

Papa aos jovens: ouçam a voz de Deus, construam um mundo melhor



"Não tenhais medo de ouvir o Espírito que sugere escolhas ousadas", diz o Papa Francisco na carta que enviou aos jovens, nesta sexta-feira (13/01), como apresentação do documento preparatório do Sínodo dos Bispos de 2018.
O Pontífice inicia a carta manifestando a sua alegria de anunciar aos jovens que, em outubro de 2018, se realizará a 15ª Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos sobre o tema “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”.
O documento preparatório foi apresentado, nesta sexta-feira, na Sala de Imprensa da Santa Sé. Um dos objectivos do texto é encontrar as melhores maneiras para acompanhar os jovens a reconhecer e acolher o chamamento à vida plena e anunciar o Evangelho de maneira eficaz.
A carta dá início a uma fase de estudo da parte do Povo de Deus. É endereçada às Conferências Episcopais, aos Conselhos dos Hierarcas das Igrejas Orientais Católicas, aos departamentos da Cúria Romana e à União dos Superiores Gerais. Espera-se também a participação dos jovens através de um site.

O Secretário-Geral do Sínodo dos Bispos, Cardeal Lorenzo Baldisseri, abriu a conferência de imprensa com os jornalistas apresentando a estrutura do documento que tem como objectivo recolher informações sobre a actual condição sociocultural dos jovens de 16 a 29 anos, nos vários contextos em que vivem, a fim de entendê-la, em vista dos passos preparatórios sucessivos para a assembleia dos bispos.
O texto é dividido em três partes: ver a realidade, a importância do discernimento, e acção pastoral da comunidade eclesial. A Igreja deseja acompanhar os jovens na descoberta e realização de sua vocação.

“Deve ser esclarecido que o termo vocação deve ser entendido no sentido amplo e diz respeito a grande variedade de possibilidade de realização concreta da própria vida na alegria do amor e na plenitude decorrente do dom de si a Deus e aos outros. Trata-se de encontrar a forma concreta em que esta realização plena possa se realizar através de uma série de escolhas, que articulam estado de vida, matrimónio, ministério ordenado, vida consagrada, etc. profissão, modalidade de compromisso social e político, estilo de vida, gestão do tempo e dinheiro, etc.”, disse o Cardeal Baldisseri na conferência.
Completa o documento preparatório um questionário que prevê a recolha de dados estatísticos sobre cada igreja local, a resposta a várias perguntas para entender melhor cada situação e a partilha de boas práticas pastorais em andamento para que possam ser de ajuda a toda a Igreja.
Os jovens serão plenamente envolvidos nesta fase preparatória através de um site a fim de recolher suas expectativas e vida.
“O próximo Sínodo não quer somente se interrogar sobre como acompanhar os jovens no discernimento de sua escolha de vida à luz do Evangelho, mas quer também colocar-se à escuta dos seus desejos, projectos e sonhos que os jovens têm para a sua vida, como também das dificuldades que encontram para realizar o seu projecto ao serviço da sociedade à qual pedem para ser protagonistas activos”, disse o Subsecretário do Sínodo dos Bispos, Dom Fabio Fabene.
Para envolver os jovens serão criadas várias iniciativas, vigílias de oração, encontros internacionais e concertos. As respostas ao questionário do documento preparatório e as dos jovens serão a base para a redacção do Documento de trabalho, o Instrumentum laboris, que será o ponto de referência para o debate dos Padres sinodais.
A seguir, a carta do Papa aos jovens
“Quis que vocês estivessem no centro das atenções, porque vos tenho no meu coração. Exactamente hoje foi apresentado o Documento preparatório, que também vos confio como «bússola» ao longo deste caminho.”
Sair
“Vêm-me à mente as palavras que Deus dirigiu a Abraão: «Sai da tua terra, do meio de teus parentes e da casa de teu pai, e vai para a terra que eu te mostrarei». Hoje, estas palavras são dirigidas também a vocês: são palavras de um Pai que vos convida a «sair» a fim de serem lançados em direcção a um futuro desconhecido, mas portador de realizações seguras, encontro ao qual Ele mesmo vos acompanha. Convido-vos a ouvir a voz de Deus que ressoa nos vossos corações através do sopro do Espírito Santo”, ressalta o Papa no texto.

“Quando Deus disse a Abraão «Sai», o que queria lhe dizer? Certamente, não para fugir de sua família, nem do mundo. O seu foi um convite forte, uma provocação, a fim de que deixasse tudo e partisse para uma nova terra. Qual é para nós hoje esta nova terra, a não ser uma sociedade mais justa e fraterna que vocês almejam profundamente e desejam construir até às periferias do mundo?”

“Mas hoje, infelizmente, o «Sai» adquire também um significado diferente. O da prevaricação, da injustiça e da guerra. Muitos de vós, jovens, estais submetidos à chantagem da violência e sois forçados a fugir da vossa terra natal. O vosso clamor sobe até Deus, como o de Israel, escravo da opressão do Faraó”, destaca o Pontífice.
Discernir
“Recordo-vos também as palavras que certo dia Jesus proferiu aos discípulos, que lhe perguntavam: «Rabi, onde moras?». Ele respondeu: «Vinde e vede!». Jesus dirige o seu olhar também a vós, convidando-vos a caminhar com Ele.”
“Queridos jovens, vós encontrastes este olhar? Ouvistes esta voz? Sentistes este impulso a pôr-se a caminho? Estou convencido de que, não obstante a confusão e a perturbação deem a impressão de reinar no mundo, este apelo continua a ressoar no vosso espírito para o abrir à alegria completa. Isto será possível na medida em que, também através do acompanhamento de guias especializados, souberdes empreender um itinerário de discernimento para descobrir o projecto de Deus na vossa vida. Mesmo quando o vosso caminho estiver marcado pela precariedade e pela queda, Deus rico de misericórdia estende a sua mão para vos erguer”, sublinha ainda o Papa.

Agir
Na abertura da última Jornada Mundial da Juventude, em Cracóvia, perguntei-vos várias vezes: «Podemos mudar as coisas?». E vós gritastes juntos um «Sim!» retumbante. Aquele grito nasce do vosso coração jovem, que não suporta a injustiça e não pode submeter-se à cultura do descarte, nem ceder à globalização da indiferença. Escutai esse clamor que vem do vosso íntimo! Mesmo quando sentirdes, como o profeta Jeremias, a inexperiência da vossa jovem idade, Deus vos encoraja a ir para onde Ele vos envia: «Não tenhas medo [...] pois eu estou contigo para te proteger».

Constrói-se um mundo melhor também graças a vós, ao vosso desejo de mudança e generosidade. Não tenhais medo de ouvir o Espírito que vos sugere escolhas audazes, não hesiteis quando a consciência vos pedir para arriscar a fim de seguir o Mestre. Também a Igreja deseja colocar-se à escuta da vossa voz, da vossa  sensibilidade, da vossa fé; até das vossas dúvidas e as vossas críticas. Fazei ouvir o vosso grito. Deixai que ele ressoe nas comunidades e fazei-o chegar aos pastores. São Bento recomendava aos abades que, antes de cada decisão importante, consultassem também os jovens porque «muitas vezes é exatamente ao mais jovem que o Senhor revela a melhor solução».

“Assim, através do caminho deste Sínodo, eu e os meus irmãos Bispos queremos, ainda mais, «colaborar para a vossa alegria». Confio-vos a Maria de Nazaré, uma jovem como vós, à qual Deus dirigiu o seu olhar amoroso, a fim de que vos tome pela mão e vos guie para a alegria de um «Eis-me!» pleno e generoso”, conclui o Papa.


Fonte: Rádio Vaticano

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Pastoral Carcerária: o problema é o encarceramento em massa



A rebelião de domingo (1/1), segundo o Governo do Amazonas, é resultado de uma guerra entre as facções Família do Norte e PCC (Primeiro Comando da Capital) pela disputa de espaço no tráfico de entorpecentes no Estado. O motim, o maior em um presídio brasileiro desde o ocorrido no Carandiru, terminou com a fuga de 184 presos, dos quais 136 ainda estariam foragidos.
Pe. Gianfranco Graziola é o Vice-Coordenador Nacional da Pastoral Carcerária. Entrevistado pela RV, ele denuncia o fenômeno do encarceramento em massa e a comercialização do sistema carcerário brasileiro.
“No Brasil, temos o chamado ‘encarceramento em massa’. É o país do mundo que mais encarcera. Hoje em dia, os dados apontam que é o terceiro país ao mundo que tem mais pessoas encarceradas ou privadas de liberdade e está num crescendo muito grande, contrariamente aos Estados Unidos, a China ou a Rússia, que esto num processo de desencarceramento porque não acreditam que o cárcere vai resolver problemas. E também nós da Pastoral, como entidade da Igreja, não acreditamos. O cárcere é um produtor de criminalidade, um produtor de violência, um produtor de tortura. Nós temos apresentado isto muito claramente com dados e isto tem tido repercussões, mas parece que não são suficientes para combater esta luta entre as facções, sobretudo este comércio que se tornou o sistema carcerário brasileiro”.
“Como Igreja, como Pastoral, temos esta dimensão que não é apenas a da evangelização, no sentido de pregadores, mas é sobretudo de denúncia, de querer o desencarceramento: esta é a nossa batalha, este é o nosso lema, o nosso trabalho, através de uma agenda com dez pontos bem concretos, e que leva ao desencarceramento. Ela questiona pontos fundamentais como a questão das drogas, a questão de uma justiça que é vertical e não horizontal ou restaurativa, e com a responsabilização da própria sociedade sobre os seus problemas, e o enfrentamento dos mesmos de uma forma coletiva e democrática”.
Fonte: Rádio Vaticano

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Ir. Alois de Taizé: mártires de nosso tempo imploram para estarmos juntos



Em entrevista concedida à Agência Sir, o Prior da Comunidade de Taizé, Ir. Alois, trata das principais questões que estão sacudindo o mundo.
Síria e Iraque
“A nossa impotência é terrível”, afirma, ao falar da guerra na Síria. “Recentemente telefonei aos franciscanos que vivem em Aleppo oeste. Aquilo que descrevem, é muito sofrimento. Mesmo assim, existem pessoas que não desistem e fazem tudo o que podem, sobretudo pelas crianças. A presença deles permite a nós não cair no desencorajamento. Mas é essencial apoiar estas pessoas com a nossa oração e ajudar o trabalho deles. Existem pessoas na mesma situação também em outros locais como em Mosul”, no Iraque.
Em função disto, o Ir. Alois fará um apelo em Riga para que, por meio de uma coleta chamada “operação esperança”, se possa expressar solidariedade às pessoas que vivem em Aleppo e Mosul.
Ucrânia e Berlim
Mas “a nossa solidariedade com a Síria e o Iraque não deve fazer com que esqueçamos de outros países em dificuldade. Vemos que a violência aumenta na Europa. Experimentamos isto há poucos dias em Berlim.
Em relação à Ucrânia, não se veem soluções no horizonte. É então fundamental que os jovens da Ucrânia e da Rússia conversem entre si, coloquem-se à escuta uns dos outros. A diplomacia será impotente sem similares encontros pessoais.
Visita à comunidade copta no Egito
Pudemos ver em Taizé, nestes últimos dois anos, o quanto encontros deste tipo, muitas vezes difíceis no início, permitem aos jovens optar por um caminho” - explica o Prior - que anuncia outro encontro para 20017:
“Em setembro próximo, com alguns irmãos e com jovens de diversos países, realizaremos uma peregrinação ao Egito e faremos uma visita, em particular, à comunidade copta-ortodoxa. O Bispo Thomas, um dos responsáveis por esta Igreja, esteve em Taizé no verão de 2015. Nos disse o quanto estas visitas são importantes para apoiar os cristãos. O aumento da violência nos obriga a estarmos juntos. São os mártires de nosso tempo, tão numerosos, que imploram por isto”.
Educar para a paz e a esperança
As novas gerações devem ser educadas para a paz, a esperança, “dando a eles confiança, dando a eles responsabilidades. Os encontros de jovens que fazemos em Taizé ou em outras partes do mundo são sustentados por eles, diz Ir. Alois, sublinhando a importância de “ajudá-los também a aprofundar a sua fé, a sua confiança existencial em Deus. Para resistir à instabilidade angustiante da nossa época, é necessário ter raízes profundas e estas raízes têm necessidade de tempo para desenvolverem-se pouco a pouco”.
Mensagem pelos 80 anos de Francisco
Pelos 80 anos do Papa Francisco, o Prior da Comunidade de Taizé assim escreveu a ele: “Gostaria de testemunhar ao senhor o que vemos em Taizé. Muitíssimas pessoas, jovens em particular, e não somente católicos, mas também protestantes, ortodoxos e pertencentes a outras religiões, às vezes até mesmo não-crentes, são sensíveis ao seu coração de pai, à sua generosidade, à abertura que o senhor manifesta por todos os homens. O senhor torna o Evangelho transparente aos seus olhos. Pedimos a Deus para lhe dar saúde por ainda muitos anos, permitindo-lhe assim, de prosseguir neste ministério difícil”.
(JE/Osservatore Romano)