terça-feira, 10 de abril de 2018

Os desafios da santidade no mundo atual: Exortação Gaudete et Exsultate do Papa Francisco


Papa na canonização de Madre Teresa de Calcutá


Os desafios de ser santos no mundo atual. Em sua Exortação Apostólica 'Gaudete et Exsultate', o Papa dá indicações sobre como viver a santidade - um chamado que é para todos - em um mundo que apresenta tantos desafios à fé. Mas Francisco começa o documento, falando sobre o espírito de alegria.
Nós nos tornamos santos vivendo as bem-aventuranças, o caminho principal porque "contra a corrente" em relação à direção do mundo. O chamado à santidade é para todos, porque a Igreja sempre ensinou que é um chamado universal e possível a qualquer um, como demonstrado pelos muitos santos "da porta ao lado".
A vida de santidade está assim intimamente ligada à vida de misericórdia, "a chave para o céu". Portanto, santo é aquele que sabe comover-se e mover-se para ajudar os miseráveis e curar as misérias. Quem esquiva-se das "elucubrações" de velhas heresias sempre atuais e quem, entre outras coisas, em um mundo "acelerado" e agressivo "é capaz de viver com alegria e senso de humor."

Não é um "tratado", mas um convite 
É precisamente o espírito de alegria que o Papa Francisco escolhe colocar na abertura de sua última Exortação Apostólica.
O título "Gaudete et Exsultate", "Alegrai-vos e exultai," repete as palavras que Jesus dirige "aos que são perseguidos ou humilhados por causa dele”.
Nos cinco capítulos e 44 páginas do documento, o Papa segue a linha de seu magistério mais profundo, a Igreja próxima à "carne de Cristo sofredor."
Os 177 parágrafos não são – adverte -  "um tratado sobre a santidade, com muitas definições e distinções", mas uma maneira de "fazer ressoar mais uma vez o chamado à santidade", indicando "os seus riscos,  desafios e oportunidades"(n. 2).

A classe média da santidade 
Antes de mostrar o que fazer para se tornar santos, o  Papa Francisco se detém no primeiro capítulo sobre o "chamado à santidade" e reafirma: há um caminho de perfeição para cada um e não faz sentido desencorajar-se  contemplando "modelos de santidade que lhe parecem inatingíveis" ou procurando  “imitar algo que não foi pensado para ele”. (n. 11).
"Os santos, que já chegaram à presença de Deus" nos “protegem, amparam e acompanham" (n. 4), afirma o Papa. Mas, acrescenta, a santidade a que Deus nos chama, irá crescendo com "pequenos gestos" (n. 16 ) cotidianos, tantas vezes testemunhados por “aqueles que vivem próximos de nós", a "classe média de santidade" (n. 7).

Razão como um deus 
No segundo capítulo, o Papa estigmatiza aqueles que define como "dois inimigos sutis da santidade", já várias vezes objeto de reflexão, entre outros, nas missas na Santa Marta, na Evangelii gaudium, bem como no recente documento da Doutrina da Fé, Placuit Deo.
Trata-se de "gnosticismo" e "pelagianismo",  duas heresias que surgiram nos primeiros séculos do cristianismo, mas continuam a ser de alarmante atualidade (n.35).
O gnosticismo – observa - é uma autocelebração de "uma mente sem encarnação, incapaz de tocar a carne sofredora de Cristo nos outros, engessada numa enciclopédia de abstrações”.
Para o Papa, trata-se de uma "vaidosa superficialidade”, que pretende “reduzir o ensinamento de Jesus a uma lógica fria e dura que procura dominar tudo”. E ao desencarnar o mistério, preferem - como disse em uma missa na Santa Marta - “um Deus sem Cristo, um Cristo sem Igreja, uma Igreja sem povo "(nn. 37-39).

Adoradores da vontade 
O neo-pelagianismo é, segundo Francisco, outro erro gerado pelo gnosticismo. A ser objeto de adoração aqui não é mais a mente humana, mas o "esforço pessoal", uma vontade sem humildade que “sente-se superior aos outros por cumprir determinadas normas" ou por ser fiel "a um certo estilo católico" (n. 49).
"A obsessão pela lei", “o fascínio de exibir conquistas sociais e políticas”, ou "a ostentação no cuidado da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja" são para o Papa, entre outros, alguns traços típicos de cristãos que “não se deixam guiar pelo Espírito no caminho do amor”. (n. 57 ).
Francisco, por outro lado, lembra que é sempre o dom da graça que ultrapassa "as capacidades da inteligência e as forças da vontade humana" (n. 54). Às vezes, constata, "complicamos o Evangelho e tornamo-nos escravos de um esquema". (Nº 59)

Oito caminhos de santidade 
Além de todas as "teorias sobre o que é santidade", existem as Bem-aventuranças. Francisco coloca-as no centro do terceiro capítulo, afirmando que com este discurso Jesus "explicou, com toda a simplicidade, o que é ser santo" (n. 63).
O Papa as repassa uma a uma. Da pobreza de coração - que também significa austeridade da vida (n. 70) - ao reagir “com humilde mansidão” em um mundo onde se combate em todos os lugares. (n. 74).
Da "coragem" de deixar-se "traspassar" pela dor dos outros e ter "compaixão" por eles - enquanto " o mundano ignora, olha para o lado" (nn 75-76.) - à sede de justiça.
“A realidade mostra-nos como é fácil entrar nas súcias da  corrupção, fazer parte desta política diária do “dou para que me deem”, onde tudo é negócio. E quantos sofrem por causa das injustiças, quantos ficam assistindo, impotentes, como outros se revezam para repartir o bolo da vida”. (nn. 78-79).
Do "olhar e agir com misericórdia", o que significa ajudar os outros "e até mesmo perdoar" (nn. 81-82), "manter o coração limpo de tudo o que mancha o amor” por Deus e o próximo, isto é santidade. (n.86).
E finalmente, do "semear a paz" e "amizade social" com "serenidade, criatividade, sensibilidade e destreza" - conscientes da dificuldade de lançar pontes entre pessoas diferentes (nn. 88-89) – ao aceitar também as perseguições, porque hoje a coerência às Bem-aventuranças "pode ser mal vista, suspeita, ridicularizada" e, no entanto, não se pode esperar, para viver o Evangelho, que tudo à nossa volta seja favorável" (n. 91).

A grande regra do comportamento 
Uma dessas bem-aventuranças, "Bem-aventurados os misericordiosos", contém para Francisco "a grande regra de comportamento" dos cristãos, aquela descrita por Mateus no capítulo 25 do "Juízo Final".
Esta página, reitera, demonstra que "ser santo não significa revirar os olhos num suposto êxtase" (n. 96), mas viver Deus por meio do amor aos últimos.
Infelizmente, observa o Papa, existem ideologias que "mutilam o Evangelho". Por um lado, cristãos sem um relacionamento com Deus, que transformam o cristianismo “numa espécie de ONG, privando-o daquela espiritualidade irradiante" vivida por São Francisco de Assis, São Vicente de Paulo, Santa Teresa de Calcutá. (nº 100).
Por outro, aqueles que "suspeitam do compromisso social dos outros", considerando-o como se fosse algo de superficial, mundano, secularizado, imamentista, "comunista ou populista", ou "o relativizam" em nome de uma determinada ética.
Aqui o Papa reafirma que “a defesa do inocente nascituro, por exemplo, deve ser clara, firme e apaixonada, porque neste caso está em jogo a dignidade da vida humana, sempre sagrada” (n. 101).
Mesmo a acolhida dos migrantes - que alguns católicos,  observa, gostariam que fosse menos importante do que a bioética - é um dever de todo cristão, porque em todo estrangeiro existe Cristo, e "não se trata da invenção de um Papa, nem de um delírio passageiro" (n. 103).

"Gastar-se" nas obras de misericórdia 
Assim, observou que "gozar a vida" como nos convida a fazer o "consumismo hedonista", é o oposto do desejar dar glórias a Deus, que pede para nos "gastarmos" nas obras de misericórdia (nn. 107-108).
No quarto capítulo, Francisco repassa as características "indispensáveis" para entender o estilo de vida da santidade: "perseverança, paciência e mansidão", "alegria e senso de humor", "audácia e fervor".
O caminho da santidade vivido como caminho "em comunidade" e "em constante oração", que chega à "contemplação", não entendida como “evasão que nega o mundo que nos rodeia” (nn. 110-152).

Luta vigilante e inteligente
E porque, prossegue, a vida cristã é uma luta “constante" contra a "mentalidade mundana" que "nos engana, atordoa e torna medíocres" (n. 159).
O Papa conclui no quinto capítulo convidando ao "combate" contra o "Maligno que, escreve ele, não é "um mito", mas" um ser pessoal que nos atormenta” (n. 160-161).
“Quem não quiser reconhecê-lo, ver-se-á exposto ao fracasso ou à mediocridade”. As suas maquinações, indica, devem ser contrastadas com a "vigilância", usando as "armas poderosas" da oração, a adoração eucarística, os Sacramentos e com uma vida permeada pela caridade (n. 162).
Importante, continua Francisco, é também o "discernimento", particularmente em uma época "que oferece enormes possibilidades de ação e distração" - das viagens, ao tempo livre, ao uso descontrolado da tecnologia - "que não deixam espaços vazios onde ressoa a voz de Deus ". Francisco pede cuidados especiais para os jovens, muitas vezes "expostos a um constante zapping", em mundos virtuais distantes da realidade (n. 167).
"Não se faz discernimento para descobrir o que mais podemos derivar dessa vida, mas para reconhecer como podemos cumprir melhor a missão que nos foi confiada no Batismo."

Com informações de Vatican News

terça-feira, 3 de abril de 2018

Para quais juventudes a Igreja oferece a sua escuta e seu olhar? Entrevista com Davi Rodrigues da Silva e Leon Patrick de Souza



Sínodo dos Bispos sobre a Juventude, que ocorrerá em Roma, em outubro de 2018, terá um documento construído por jovens de todo o mundo para iniciar a discussão. Esse documento foi elaborado a partir da síntese das discussões da Reunião Pré-Sinodal, ocorrida de 19 a 25 de março de 2018, no Vaticano. Além dos 300 jovens presentes na reunião, outros 15 mil jovens participaram pelo Facebook em grupos divididos por países e organizados pelo Sínodo.
Pela primeira vez na história, a Igreja faz um processo de convocação de uma assembleia mundial com a juventude. Essa inserção no Sínodo começou ainda em 2017 com um documento preparatório enviado às dioceses, contendo os elementos a serem trabalhados no Sínodo e um questionário para desenvolver. Os primeiros passos indicam a abertura da Igreja para a escuta dessa categoria social que se distancia cada vez mais das instituições em suas formas já estabelecidas. Porém procura os espaços de atuação, política ou religiosa, a seus moldes na perspectiva de ser protagonistas de processos.
documento final organizou-se em três partes: realidade juvenilfé e discernimento vocacional; e atividade pastoral. Nestas categorias é possível perceber algumas discussões que foram desenvolvidas, mas ainda sem diretrizes. A participação de jovens de outras religiões, agnósticos e ateus, foi propiciada com o intuito de aprofundar a compreensão e o diálogo com as diferentes realidades juvenis. No documento final ficou perceptível a pluralidade de opiniões, sobretudo em temas polêmicos, como homoafetividadesacerdócio femininomigrantes e refugiados: “[...] muitos jovens querem que a Igreja mude seus ensinamentos [...] muitos jovens católicos esperam que a Igreja proclame e aprofunde seus ensinamentos”. Fica em questão a juventude como uma categoria social em disputa na sociedade, mas não de forma homogênea. O sínodo de outubro pode reforçar apontamentos sintetizados, como o de uma “Igreja em saída, para as periferias, perseguidos e pobres [...] uma Igreja relacional”, ou “Igreja que reforça os ensinamentos sobre os sacramentos”. Nem mesmo a juventude católica pode ser considerada uma categoria homogênea.
No diálogo com essa diversidade, o Papa Francisco em suas falas na reunião, na abertura e encerramento, ressaltou o pedido para a participação efetiva dos jovens na Igreja e incitarem seus debates. Na abertura convocou para que “falassem com coragem” e “deixassem a timidez na porta”, pois “esta reunião pré-sinodal quer ser o sinal de algo grande: o desejo da Igreja de ouvir toda a juventude, sem excluir ninguém". No encerramento, em pleno Domingo de RamosFrancisco convocou-os a serem profetas: “Queridos jovens, cabe a vocês a decisão de gritar, cabe a vocês decidirem-se pelo Hosana do domingo para não cair no ‘crucifica-O’ de sexta-feira”. Para Davi Rodrigues da Silva, secretário nacional da Pastoral da Juventude, em entrevista à IHU On-Line: “Dar voz apenas a uma juventude não basta, pois ela não é por excelência provocadora de mudanças”.
Para dialogar sobre o desenvolvimento da reunião e as disputas que envolvem a juventude, IHU On-Line entrevistou, por e-mail, os brasileiros delegados do Pré-Sínodo, Davi Rodrigues da Silva, secretário nacional da PJ e representante da Comissão Episcopal para a Juventude da CNBB na reunião, e Leon Patrick de Souza, assessor da Cáritas do Brasil para infância, adolescência e juventude, e delegado como representante da Cáritas Internationalis.
Confira a entrevista.
IHU On-Line — Quais foram as juventudes que participaram do processo Pré-Sinodal? Como se deu a participação de jovens não católicos?
Davi Rodrigues da Silva | Foto: Arquivo Pessoal
Davi Rodrigues da Silva — A intenção da reunião Pré-Sinodal era poder ouvir jovens de diversas partes do mundo, sobre suas realidades, fé e caminhos que trilham para seus projetos de vida. Para isso, os convites foram feitos para as comissões episcopais, movimentos, novas comunidades e associações. No meu caso fui junto com outras duas jovens representando a Comissão Episcopal para a Juventude da CNBB. No entanto, havia um grandioso grupo de brasileiros no encontro, dentre eles alguns seminaristas e outros vinculados às novas comunidades. Os que não estavam participando como delegados, estavam em funções importantes, como nos grupos de relatoria e tradução, além de outros serviços que o encontro demandava.
Para as três vagas referentes à CNBB o critério de escolha foi, primeiro, uma divisão por carismas; uma vaga para as congregações, novas comunidades e movimentos; uma vaga que representasse os Jovens Conectados (grupo de serviço de comunicação da Comissão Episcopal para Juventude da CNBB); e outra para as Pastorais da Juventude, na qual fui o representante. Sobre os demais brasileiros presentes não sei por qual via foram convocados.
Sobre a presença dos jovens não católicos é fundamental frisar que eles não tinham qualquer identificação que os marcasse como “não-católicos” e sua participação se dava exatamente da mesma forma que a dos católicos, ao menos no que tange à metodologia. Isso mostra que o fundamental no processo foi a contribuição e não o grupo de pertença.
Gostaria de ressaltar a afirmação de um jovem — que se identificou como ateu, e que pode soar como um alerta para perceber quais recortes estamos fazendo para ouvir o mundo juvenil — durante a apresentação de uma das primeiras versões do documento na plenária: “Eu como jovem não crente, não me vejo representado até agora nesse documento, me parece algo de crentes para outros crentes”.

León Patrick de Souza | Foto: Arquivo Pessoal
Leon Patrick de Souza — Foi uma experiência inovadora na história da Igreja, na história da realização dos sínodos dos bispos. Pela primeira vez se realizou, antes do sínodo, um momento com os sujeitos que estão no centro do tema que vai ser refletido pelos bispos em outubro. Participaram cerca de 300 jovens de todos os continentes, praticamente todos os países estavam representados, alguns com maior representação. A maioria eram jovens que estão nas pastorais juvenis, e nas suas diversas formas de organização ao redor do mundo, dos movimentos eclesiais, nas novas comunidades, na vida consagrada, nos institutos, na vida laical, em movimentos políticos, artísticos, em universidades, cristãos que confessam outra fé, não cristãos e jovens sem religião ou crença.
Não tivemos momentos separados com esses jovens de outras religiões. Os trabalhos de grupos que foram a maior parte da reunião estavam mesclados entre os jovens das diferentes crenças. Essa participação foi muito importante para perceber a realidade juvenil dentro do contexto eclesial, mas também para fora. O olhar desses jovenspara a ação da Igreja e para o compromisso que deve ter, e como nós podemos ajudar e acompanhar, para fazer um caminho de mais parceria, de maior diálogo e construção coletiva.
IHU On-Line — Quais são os três pontos mais relevantes da etapa Pré-Sinodal? E quais foram as três lacunas deixadas nessa etapa?
Davi Rodrigues da Silva — Para mim, um primeiro ponto a ser ressaltado é intencionalidade do pastoreio de Francisco em estabelecer uma Igreja Sinodal, uma Igreja que tem como desejo caminhar junto com aqueles que fazem no seu dia a dia a ação evangelizadora, que estão em contato com as alegrias e mazelas do povo do mundo todo. O segundo, termos vivido a primeira reunião pré-sinodal da história da Igreja e termos sido nós os jovens os chamados a construir esse momento tão importante, é profundamente simbólico. Um terceiro ponto a destacar é o conceito de protagonismo pedido por Francisco, e encorajado com as seguintes palavras na manhã de abertura dos trabalhos: “falem sem filtro, não tenham medo de dizer o que pensam do mundo e da Igreja, se alguém por ventura não gostar, peçam desculpas e sigam, certamente não fazem por má intenção”. O Sínodo dos jovens não é para o episcopado falar sobre os jovens, mas para falar e fazer com os jovens.
Como lacunas, penso que poderia ter havido mais atenção ao objetivo do encontro e aos delegados convidados. Acho que os jovens do mundo todo não foram chamados somente para aplaudir a doutrina e aquilo que já está posto no cenário da evangelização da juventude, mas sim para poder a partir do seus cenários juvenis propor novidadescapazes de ajudar na aproximação da ação pastoral da Igreja com esse mundo.
Uma Igreja aberta ao mundo juvenil e que promova o seu protagonismo vai muito além de estar aberta apenas aos jovens. Creio que é preciso ir além de fetichismos estéticos, típicos de heranças clericalistas e das estruturas distantes das realidades. Há um clamor para que haja proximidade efetiva da vida real da juventude. A realidade da juventude latino-americana e brasileira, que diariamente é exterminada nas ruas de nossas cidades e campos, na sua maioria empobrecida e distante de qualquer atenção institucional, está carente desta proximidade.
Não basta dar voz à juventude. Por si só ela não é suficiente para ser provocadora de mudanças. Urge que a Igreja entenda quão necessário é aproximar-se do mundo juvenil, sem reservas. O desafio está para além de apenas fazer uma opção pelos jovens. É necessário reafirmar a opção pelos pobres, os jovens pobres, negros, indígenas, aqueles e aquelas que mais pedem urgência, pois só assim se alcançará um diálogo profícuo com o mundo juvenil e então haverá possibilidades de deixar-se arejar pela semente oculta do Verbo que existe nas juventudes, em sua pluralidade.
Leon Patrick de Souza — No âmbito dos pontos relevantes destaco dois que são fundamentais: 1) a participação de jovens de outras religiões e inclusive ateus. É um caminho e um movimento novo de cada vez mais reafirmar a Igreja presente no mundo, fazendo a leitura dos sinais dos tempos, das realidades juvenis, que não é só a realidade dos jovens que estão na Igreja. Precisamos escutar os clamores dos jovens, que mesmo não estando na caminhada eclesial e pastoral, não professando a fé, não vinculados institucionalmente à tradição católica, são jovens que têm algo a nos dizer para qualificar e apontar outras narrativas e práticas para ação; 2) acho que foi a participação virtual – sabemos que mais de 15 mil jovens participaram pelo Facebook– e essas contribuições também fazem parte do documento final.
Então, primeiro, reconhecer a diversidade, as diferenças, e como isso é importante para fazer um acompanhamento das juventudes no mundo; e segundo, a dimensão da tecnologia, como se aproximar de jovens que não puderam estar presentes, mas que pelas novas linguagens da comunicação puderam contribuir.
Já uma lacuna que o encontro deixou foi justamente por não saber aproveitar com mais vigor a presença de jovens de outras religiões e ateus. Nos momentos celebrativos, culturais, poderia ter se pensado em espaços de maior imersão, maior diálogo inter-religioso, ecumênico, com outas formas de ser, de liturgia, de celebração, de cantos. Valeria a pena o encontro ter apostado na realização de momentos orantes que também contemplassem outras religiões, de forma que elas também pudessem nos apresentar as formas como eles têm se relacionado com a dimensão do sagrado e da espiritualidade.
IHU On-Line — Como os temas discutidos na reunião repercutem no documento?
Davi Rodrigues da Silva — Um documento escrito por mais de 300 jovens vindos de todas as partes do mundo e com limite de tamanho, precisa ser um documento plural, ao mesmo tempo sucinto, mas não superficial e que ponha as grandes questões. Porém, uma questão desses grandes encontros que tem como um dos seus objetivos escrever um documento final, é como se resume a discussão. Quem determina o que fica e o que sai? Como fica, com qual destaque e palavras?
O Papa pediu para que falássemos sem medos, sem filtros. Acredito que também tenha recomendado isso aos relatores. Acredito na sensibilidade dos relatores e na acuidade do próprio Papa, que certamente espera ver recolhidos todos os anseios, sugestões e propostas. Tenho certeza que o Espírito que foi para lá enviado e recolhido pela presença dos jovens não caberá inteiro num documento, por mais perfeito que seja, por isso, acredito no processo.
De modo geral creio que o documento aponte a pluralidade como riqueza e assim revele uma Igreja aberta a acolher o novo que a juventude carrega em suas vidas.
Leon Patrick de Souza — Importa ressaltar que não existia um primeiro esboço dodocumento final antes do encontro para só inserirmos alguma coisa. O documento oficial que está divulgado é inteiramente forjado e elaborado pelas reflexões dos mais de 20 grupos de trabalhos, divididos por idiomas. Nesses grupos, durante um dia e meio, nós refletimos os três grandes eixos que compõem o documento final. Uma primeira parte fala das mudanças e oportunidades para as pessoas jovens no mundo de hoje; depois uma segunda parte que trata sobre fé, discernimento vocacional e acompanhamento; e a terceira parte que fala das atividades formativas e pastorais da Igreja. É claro que em uma reunião com uma riqueza de expressões da missão da Igreja, nem sempre um documento escrito dará conta de toda diversidade. Mas a versão oficial e aprovada foi trabalhada por três dias, com um grupo menor de relatores, de sistematizadores que foram, a partir das reflexões dos grupos, apresentando uma proposta, depois a partir das contribuições da plenária, e enfim uma versão final do documento.
Papa pediu que os jovens falassem sem medo, sem filtros. E o documento é isso, os jovens reconhecem e querem fazer uma caminhada conjunta com as pessoas adultas, na perspectiva que tenham mais capacidade de nos acompanhar enquanto jovens. Mas é um documento que tem coragem de apontar aos bispos questões que são cruciais para a Igreja discutir. São jovens que estão falando sobre isso, cristãos, católicos, mas também os outros de fora da Igreja. Nesse sentido, a dimensão da sexualidade, da afetividade, da violência contra a juventude, contra as mulheres, acolhida aos migrantes e refugiados etc. são temas muito importantes para serem dialogados, e o documento aponta que os jovens dialogam sobre isso sem tabu. Então enquanto Igreja como deixarmos de julgar para fazer um acompanhamento? Estamos falando de acompanhamento institucional (da Igreja), mas a partir de pessoas que precisam assumir essa tarefa como uma vocação, um cuidado com o projeto de vida dos jovens. Isso certamente provocará a dimensão do amor, atenção aos anseios e transformações da vida juvenil, que por tantas vezes é massacrada. Olhar para a juventude com a perspectiva de presente para garantia de seus direitos e da sua dignidade, e olhar para o seu futuro com esperança. O documento trata disso com profundidade.
Na parte dois, da fé e discernimento vocacional, o texto aponta elementos-chaves que hoje ligam os e as jovens à dimensão da fé e do sagrado. Mudaram-se muitas concepções e estruturas, existem movimentos e dinâmicas dos nossos tempos que faz com que o jovem se conecte ao sagrado de forma diferente. Seja por meio das filosofias orientais, exercícios meditativos, outras crenças religiosas como o budismo e as religiões afro. E no próprio interior da Igreja Católica é preciso perceber e respeitar a diversidade, de maneiras de assumir a vivência da fé, o anúncio do Evangelho. Com esses apontamentos, as juventudes indicam que querem fazer parte de comunidades não apenas preocupadas pelos Templos e doutrinas tantas vezes distantes de suas vidas. Mas sim, os jovens querem espaços onde sua relação com o sagrado dialogue com seu cotidiano, com seus projetos, sonhos e angústias.
Quando o documento fala das atividades pastorais e da formação, aponta muitos caminhos futuros, sobretudo, para além dos muros da Igreja. O documento cita a paixão dos jovens pelas atividades políticas, civis e sociais. Então o desafio agora é desenvolver processos de formação integral dos jovens, para que à luz da fé, à luz da missão social da igreja, olhando para a dimensão política, à luz da doutrina social da igreja, como que estamos no mundo e como assumimos bandeiras e trincheiras de luta dos povos, pela promoção da vida, da dignidade humana, e sobretudo das pessoas mais empobrecidas.

IHU On-Line — Que ações foram feitas no Brasil antes da reunião e que resultados podem ser apresentados desse processo? E em Roma, como se deu a participação da juventude brasileira na reunião e na elaboração do documento Pré-Sinodal? Quais foram os protagonistas desse processo?

Davi Rodrigues da Silva — As ações que antecediam as reuniões pré-sinodais se deram por meio de formulários que as dioceses receberam e deveriam, a partir da sua dinâmica, responder questões referentes ao mundo juvenil. Ademais, houve um grupo no Facebook para que qualquer jovem que desejasse pudesse se cadastrar e responder as questões que lá estavam.
Dos jovens brasileiros posso afirmar que todos empenharam-se em estar nos seus grupos de discussões. Eu fiquei em um pequeno grupo de língua espanhola — pois não havia em português — e tentei levar a realidade da ação evangelizadora da Pastoral da Juventude, que em seus 45 anos busca estabelecer uma organização que dê conta de, a partir da própria juventude, protagonizar um processo de autonomia e libertação junto aos jovens das comunidades periféricas do Brasil. Assim, coube denunciar que somos tão marcados pelas injustiças sociais e econômicas, onde nós, jovens brasileiros e latino-americanos, somos as principais vítimas da exclusão e, em consequência, diariamente, e em progressão, da morte.
Leon Patrick de Souza — Sobre a participação da delegação brasileira, foram três, DaviAriane e Juliane, pela Comissão Episcopal para a Juventude da CNBB. Eu estava representado a Cáritas Internationalis, havia jovens de outros movimentos, Comunidade ShalomCanção Novareligiosos e seminaristas. A nossa participação durante os trabalhos em grupo foi com os grupos de língua espanhola. Isso foi muito importante, porque nos agregou e nos fez estar em comunhão com os irmãos latino-americanos e nos ajudou a garantir elementos importantes a partir do olhar da Igreja latino-americana para o documento final.
Então esperamos agora contribuir com o processo de fazer com que as pessoas compreendam mais o importante momento que é o Sínodo, conheçam o documento final, além de acompanhar com esperança e oração o encontro dos bispos que será em outubro e os frutos que virão depois.
IHU On-Line — Como você avalia o discurso do Papa para os jovens neste Domingo de Ramos? Que relações você estabelece entre esse discurso e o documento Pré-Sinodal? Como esse discurso debate com a atual conjuntura política?
Davi Rodrigues da Silva — São muitas perguntas dentro de uma só, merecia uma resposta mais ampla, mas de forma geral penso que devemos ressaltar o “espírito” dasintenções pastorais de Francisco, que mais uma vez se revelaram em seu discurso no último Domingo de Ramos. O Papa após falar da importância da alegria (festa) juvenil, ressaltar o drama da anestesia que o sistema nos impõe, exorta que os jovens gritem, profetizem e finaliza com uma pergunta: “Diante desse mundo inerte vocês gritaram? Por favor decidam-se antes que gritem as pedras”.
Esse forte discurso papal não nos é nenhuma novidade, ele deseja uma Igreja em saída, uma Igreja profética onde todos sintam-se corresponsáveis pela construção do Reino. No entanto diante desse pontificado me ocorre de dizer que corremos dois grandes riscos:
Primeiro, de olharmos para o Papa e enxergamos apenas uma figura simbólica. Ver o líder histórico, do qual desejamos apenas estar próximos pelo poder que esse cargo representa na tradição católica, em uma leitura biopolítica. E nisso, ficarmos com os ouvidos fechados para suas exortações ou, até pior, condenarmos sua postura de abertura; e o segundo risco é de acharmos que o Papa e suas ações resolverão todas as nossas mazelas, que não é preciso se mobilizar, organizar e evangelizar de forma libertadora. Seria um efeito contrário ao movimento proposto de coragem e saída. Acharmos que a fala do Papa já nos basta seria o fim do protagonismo.
Espero que o vejamos como uma voz profética que clama, para que a partir do Evangelho possamos viver com autenticidade e coerência as nossas ações em todos os campos de nossas vidas. Sobretudo na conjuntura brasileira, onde vivemos um momento delicado da expansão do discurso e da prática do ódiodo crescimento dos fundamentalismos do fascismo e ameaça aos direitos humanos. Precisamos escutar Francisco e fazermos de nossas vidas sinais vivos, que clamam por mudanças, que dignifiquem a vida, fazendo dela plena para todos.
Leon Patrick de Souza — O domingo de Ramos teve uma dupla dimensão para nós. Era o encerramento da reunião e a Jornada Mundial da Juventude, celebrada em nível diocesano. A homilia foi curta, mas muito profunda na dimensão teológica. Fazendo memória da Paixão e Morte de Cristo, e nos permitindo iniciar a semana santa recordando o mistério da entrada de Jesus em Jerusalém.
Em alguns momentos o Papa citou como foram os diversos sentidos dessa entrada de Jesus naquele tempo, mas também nos tempos de hoje. Como as pessoas donas do poder viram Jesus entrando em Jerusalém. E como os pobres, os marginalizados, perceberam e receberam Jesus em Jerusalém. Tinha ali o cântico do publicano, da pessoa que vive marginalizada, é o grito de mulheres e homens que recebem de forma calorosa Jesus porque experimentaram seu amor e seu cuidado naquele tempo.
Depois o Papa fala dos fariseus que criticavam Jesus e os pobres que estavam ali o recebendo. Era a comunidade, o grande povo que recebia Jesus ali. Os poderosos não tinham medo, nem escrúpulo para abafar as vozes daquele povo. Olhando hoje para o Brasil, e no mundo também, vemos muitos “fariseus” querendo calar as vozes, e tantas vezes calando até a morte. Matando as vozes, sufocando projetos de vida, que nascem a partir da experiência e luta das pessoas para ter vida digna e direitos garantidos. E de certa forma se tenta silenciar a festa do povo marginalizado que recebe Jesus com mantos e ramos. Onde é que se silencia isso? É no calvário, na sexta-feira santa. Na verdade é uma tentativa de silenciamento porque somos o povo da ressurreição. No “terceiro dia” nos refazemos com esperança e vigor para resistir e continuar lutando, organizando comunidades, defendendo a vida das juventudes.
Papa pediu aos jovens que não se deixassem calar. Jesus não se calou a partir do que os fariseus falavam. “O jovem alegre é um jovem difícil de manipular”, disse Francisco. Então que essa entrada de Jesus em Jerusalém, esse caminho da paixão, de morte, mas que aponta para a Ressurreição também nos ajude a inovar nas narrativas, práticas, e a reconhecer o jovem como sujeito no mundo, e na Igreja, que ainda é muito difícil. Custa para que as pessoas escutem e dialoguem com os jovens, especialmente nos espaços de poder e decisão. Se não falar, as pedras gritarão, disse o Papa. Não queremos que as pedras gritem. Queremos falar e junto com o Papa Francisco seguiremos clamando uma Igreja em saída, comprometida com a vida em abundância para todas as pessoas, para todos os jovens.
Com informações do IHU Online

quarta-feira, 28 de março de 2018

A Igreja é capaz de escutar e 'esperançar' a juventude? Entrevista com Maicon Malacarne

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Ocorreu nesta semana no Vaticano a reunião Pré-Sinodal com mais de 300 jovens do mundo inteiro. A reunião é preparatória para o Sínodo dos Bispos que ocorrerá em outubro de 2018. O Brasil conta com a participação de três jovens escolhidos pelas expressões juvenis da Comissão Episcopal Pastoral para a Juventudeda Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB, representando as Pastorais da Juventudemovimentos juveniscongregações e novas comunidades, e dois jovens convocados por outras entidades eclesiais — Movimento Apostólico Schoenstatt Internacional e Fórum de Jovens da Cáritas Internationalis. A proposta desenvolvida para a reunião é de escuta aos jovens de todos os continentes para formulação das diretrizes a serem trabalhadas por padres e bispos que participarão do Sínodo.
A reunião Pré-Sinodal propõe-se ao diálogo direto com a juventude. Os jovens em Roma foram os responsáveis por apresentar os relatórios preparados nos seus países, construídos nas paróquias, grupos e dioceses do documento preparatório lançado em janeiro de 2017. Além do trabalho presencial, o Sínodo abriu o debate pelas redes sociais, incentivando a participação por meio de hashtags no FacebookInstagram e questionários por e-mail. Ao final da reunião Pré-Sinodal será feito um relatório síntese das discussões.
Pela primeira vez na história um Sínodo trata a juventude como tema. A Igreja faz um movimento de reconhecimento dos atuais limites na evangelização dos jovens. Para isso a preparação desenvolveu-se em três áreas: dinâmicas socioculturais da juventude, fé e discernimento e pastoral juvenil vocacional. A intenção do Sínodo é desenvolver diretrizes que possibilitem o protagonismo juvenil e o acompanhamento dos seus anseios no mundo contemporâneo.
Para fazer uma contextualização do processo desenvolvido pelo Sínodo e debater sobre as expectativas de resultado na atual conjuntura, o Instituto Humanitas Unisinos - IHU entrevistou por e-mail o Pe. Maicon André Malacarne. Segundo Pe. Maicon, “ouvir é um passo importantíssimo. É um grito da Igreja que quer se aproximar. Sabe que de alguma maneira não responde mais a perguntas que essa geração faz”.
Pe. Maicon Malacarne tem especialização em Juventudes no Mundo Contemporâneo, pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia - Faje e contribui com o boletim Centinela da Pastoral Juvenil Latinoamericana (Celam). Atualmente é assessor nacional da Pastoral da Juventude (CNBB), coordenador de pastoral da Diocese de Erexim, RS e pároco da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, em Erechim.
Pe. Maicon Malacarne | Arquivo Pessoal
Sínodo também será debatido no XVIII Simpósio Internacional IHU — A virada profética de Francisco: Possibilidades e limites para o futuro da Igreja no mundo contemporâneo, que será realizado na Unisinos Porto Alegre entre os dias 21 e 24 de maio de 2018. A Profa. Dra. Carmen Oliveira, o Prof. Dr. Hilário Henrique Dick e o MS Rubens Nunes da Mota estarão na mesa-redonda Juventudes e o Sínodo 2018 — Perspectivas para um debate, no dia 21 de maio, às 14h30min.

Leia a entrevista.

IHU On-line — De que forma e com quem o Sínodo tem sido trabalhado no Brasil?
Maicon Malacarne — A CNBB provocou a juventude brasileira a envolver-se na preparação ao Sínodo 2018 nos instrumentos que o material preparatório propunha. A Conferência é responsável por receber e compilar os materiais enviados pelos jovens e, por uma comissão organizada para esse trabalho, enviar à Santa SéAs Pastorais da Juventude, os Movimentos Juvenis, as Congregações e Novas Comunidadestiveram oportunidade de dizer sentimentos, visões, partilhar anseios e esperanças da juventude do Brasil. Isso era provocado em três dimensões: dinâmicas sociais e culturais, o discernimento para descoberta vocacional e os desafios de uma pastoral juvenil vocacional. As respostas podiam ser enviadas para um e-mail específico. Mais tarde, houve possibilidade de participação também por um questionário on-line.
Para além disso, o Sínodo tem a força de despertar para o debate os assuntos que pauta. Assim, as reuniões, formações, encontros de grupos de jovens (e outros) também foram e continuam sendo espaços para conversar sobre a temática da juventude, da fé e do discernimento vocacional. O material preparatório ajuda nesse sentido.
IHU On-line — A Igreja de hoje é capaz de despertar alguma esperança nos jovens? De que forma?
Maicon Malacarne — Talvez a esperança maior que o Sínodo propõe é ouvir a juventude. Estão sendo escutados, nessa etapa preparatória, jovens católicos, mas não só. Jovens de outras religiões, jovens sem religião e jovens ateus estão na roda de conversa. A Igreja quer ouvir. Quando se coloca numa atitude de escuta, também se reconhece humilde, limitada e aberta a novidade que a juventude coloca. Claro, não basta ouvir, precisa acolher, precisa deixar-se converter. Ouvir é um passo importantíssimo. É um grito da Igreja que quer se aproximar. Sabe que de alguma maneira não responde mais a perguntas que essa geração faz. Sabe que suas respostas não impactam mais a vida deles. Para isso, precisa ouvir/aproximar. Isso para mim gera esperança.
IHU On-line — A Igreja é capaz de ouvir a juventude em assuntos tão presentes para eles e ainda pouco debatidos na realidade eclesial, como afetividade e sexualidade, feminismo e os movimentos LGBTTI?
Maicon Malacarne — Quando dizemos querer ouvir, a atitude não pode ser parcial. Não é possível ouvir somente aquilo que se “quer”. O papado de Francisco, numa proposta de abertura e de fidelidade ao Evangelho, naquilo que ele chama de “Igreja em saída”, quer nos levar para esses “terrenos” ainda pouco pautados. É urgente debater temáticas como o feminismo, por exemplo, numa sociedade que se manifesta cada vez mais machista. É importante dizer que pautar significa ter maturidade de partilhar para além das polarizações: sou contra ou sou a favor. Aprofundar exige abertura de quem se coloca nesse movimento. Sim, penso que a Igreja é capaz de ouvir e dialogar sobre temas como os citados e outros mais. Temos espaços que já fazem isso com muita maturidade e que, não raro, são taxados de heréticos, excomungados etc. Geralmente, esses sinônimos vêm de quem não acredita no debate desses assuntos. Repito: aprofundar temáticas da vida das pessoas vai para além da polarização do debate, mas justamente em buscar um caminho de abertura, de discernimento e de contínua aproximação.
IHU On-line — Quais são as demandas da juventude latino-americana no diálogo com a Igreja?
Maicon Malacarne — Parece que a questão central que historicamente aparece no contexto juvenil latino-americano é a atenção à juventude empobrecida. Estamos há quase 40 anos da Conferência de Puebla em que foi pautada a opção preferencial pelos jovens e pelos pobres e essa realidade continua em estado de alerta. Os índices de desemprego dos jovens aumentou (no Brasil, segundo dados do estudo Tendências Globais de Emprego para a Juventude 2017, chega a 30% de desempregados jovens entre 15 e 24 anos). O acesso à educação também continua sendo um desafio. Para além disso, os jovens são as maiores vítimas da violência. Quando se fala em violência contra a juventude negra os números são ainda mais alarmantes (o Mapa da Violência traz dados bem impactantes para o Brasil). Não é difícil de ver que a onda de perda de direitos sociais na América Latina atinge em cheio essa categoria social. O impacto se dá em todas as dimensões da vida, como as citadas acima e outras. No âmbito da espiritualidade, assistimos crescer uma tendência conservadora e individualista. Coloca-se a urgente demanda de uma espiritualidade integral, conectada à vida.
IHU On-line — De que forma as diretrizes para a evangelização da juventude no Brasil, apontadas pelos Documentos 85 e 103 da CNBB, de 2007 e 2013, respectivamente, e a nível latino-americano o Civilização do Amor: Projeto e Missão, de 2012, impactam na sociedade e na Igreja?
Maicon Malacarne — Esses documentos citados, em maior ou menor grau, trazem presente uma perspectiva daquilo que a Igreja Católica propõe na sua ação. Parece que isso já é algo importante. Sistematizar seus conteúdos e práticas ajuda a apontar para um caminho. Ambos os documentos falam em uma perspectiva de educação na fé que leva em conta a formação integral. Isso significa que para a Igreja, além da relação dos jovens com Deus (já é muito pertinente pensar isso com profundidade), também se preocupa com o jovem naquilo que ele é, na sua relação com os outros, com a sociedade, com a política, com tudo que o envolve. A formação integral é algo que a Igreja propõe em qualquer ação com a juventude. Isso é impactante à medida que provoca o protagonismo juvenil nas relações que estabelece com a totalidade das coisas.
IHU On-line — O pontificado de Francisco promove transformações no processo de evangelização da juventude latino-americana e brasileira? Como?
Maicon Malacarne — Papa Francisco propõe uma eclesiologia a partir dos pobres: quero uma Igreja pobre e para os pobres. Retoma, assim, as opções das Conferências Episcopais Latino-Americanas. Talvez essa seja uma transformação que volta em cheio. Provocar a partir dos pobres a fidelidade ao Evangelho. É bom lembrar que a Pastoral da Juventude Latino-Americana também sempre acompanhou com clareza essa opção preferencial.
Outro elemento que merece destaque é a provocação que o bispo de Roma faz para o protagonismo juvenil. Pensar isso, necessariamente, é transformador. Coloca-se a necessidade de espaços que sejam organizados pelos jovens. Para além de jovens que “obedecem” adultos, o protagonismo defendido por Francisco provoca para a organização pastoral a partir e pelos jovens. Sem organização assim não é possível pensar uma ação transformadora com a juventude.
Ainda, Francisco tem provocado para esse Sínodo a questão do discernimento vocacional. Qualquer discernimento exige acompanhamento. Não é alguém que “manda”, é alguém que acompanha. A expressão acompanhar deriva de “comer o mesmo pão”. O discernir exige pessoas próximas, que “comem o mesmo pão da juventude”, para contribuir na construção do seu projeto de vida. Penso que não há como pensar hoje uma pastoral vocacional e uma evangelização da juventude sem pauta, prioritariamente, o protagonismo e o acompanhamento aos projetos de vida.
Por fim, acho que ainda vale destacar o último livro escrito por Francisco que se chama Deus é jovem (2018). De alguma maneira, Francisco apresenta a juventude como uma realidade teológica. Há mais tempo essa é uma perspectiva apontada pela Pastoral da Juventude Latino-Americana. Vale lembrar de um ícone desse pensamento que é o jesuíta Pe. Hilário Dick — destaque para o livro O divino no jovem (São Paulo: CCJ, 2009). Apresentar essa realidade é dizer que em toda juventude se revela Deus.
IHU On-line — O Sínodo propõe um diálogo com a juventude via redes sociais. Quais as expectativas com relação a esses debates? E, em um momento de avanço dos discursos violentos entre os jovens nessas mídias, como evitar que o diálogo seja contaminado?
Maicon Malacarne — A pergunta é muito exigente. Não podia ser diferente a proposta do Sínodo de embarcar no diálogo pelas redes sociais. É uma das realidades mais concretas da juventude. Precisa acontecer ali o debate. Muitos jovens se escondem nesse espaço para dizer aquilo que não conseguem dizer no off-line. É um campo também em disputa. Penso que não há “receitas mágicas” de como isso pode ser feito. É necessário compreender a realidade dos discursos violentos que as redes revelam e buscar os elementos que extrapolam. Não dá para negar que, mesmo nesse contexto, as redes são uma das dimensões mais reais da realidade juvenil e, assim, podem contribuir na proposta sinodal.
Com informações de Revista IHU Online